Abigeato e outras do latim

Penso que agora os fazendeiros poderão gastar seu latim dizendo que estão privilegiados com a criação deste novo tipo penal: o Abigeato, ou seja, o roubo/furto de bovino e equinos. Ab agere, ou seja, verbo que indica o que tem de ser fustigado, tangido para se mover. Abigeatu é a forma substantivada de que significa fustigar, tanger, bater. Mover aqui para o trabalho em favor do homem. Refere-se aos cavalos e bois apenas. Pois o fato de eles caminharem sozinhos para comer e demais atividades os latinos deram o nome de res semovente, ou seja, coisa que anda sozinha, incluindo aí os porcos, ovelhas e outros animais domésticos que no português ficou “semoventes”.

Pois bem, criado o novo tipo penal com a lei 13.330 deste ano o legislador pesou a mão e torna dura em todos os aspectos a recriminação a este crime que no mais das vezes atinge pequenos produtores de gado.

Mas a criação do novo crime não reprime – como bem sabemos – a prática do ato. Os produtores rurais continuarão a ver seu gado ser levado por ladravazes sem que sejam encontrados e sempre ficando no prejuízo.

E por falar em abigeato quero compartilhar com o leitor algumas palavrinhas que o latim nos oferece e, que nem sempre temos a curiosidade de pesquisar suas origens um tanto particulares.

Se quem comete abigeato é o ladrão de gado, quem rouba o erário público é chamado de larápio. Atualmente estamos com um considerável número destes abjetos cidadãos no cenário político nacional e um número sem fim pretende entrar no cenário municipal este ano. Pois bem, larápio é uma palavra que veio para insultar uma família inteira que deu origem a vários políticos conhecidos e de grande exponencial na Roma antiga. Havia naquela época um cidadão de nome Lúcius que era senador no pretório romano. Foi descoberto que ele roubava muito dinheiro dos cofres de César. Então ele foi despojado de todos os seus bens e mandado para as ruas para viver de esmolas. Tal qual aconteceu com Jesus Cristo, penduraram uma placa no seu pescoço e ele não poderia retirá-la. Na placa seu nome deveria ser escrito. Lúcius Antonius Rufos Ápio. Mas como a placa ficaria muito grande, resumiram, deixando apenas o sobrenome da famosa família Ápia para ser denegrida. Assim sendo a placa menor ficou com os as três primeiras letras de cada um de seus prenomes e o nome da família: L A R Ápia. Daí por uso corriqueiro passou-se a “larápio” quando se referiam ao um bandido de cofres públicos com a mente naquele condenado em especial.

Imaginemos que se fosse para escrever todo o texto pretendido na cruz de Jesus Cristo! O símbolo cristão deveria ter dois “braços” um para a crucificação e outro para o letreiro: “Iesus Nazarenus Rex Iudeorum”. Ficou mas cômodo colocar apenas I N R I.

Hora se junta as iniciais, hora se junta as palavras. Em direito existe uma palavrinha que assusta os alunos nas primeiras aulas de processo civil: litisconsórcio. Litisconsórcio prá lá, litisconsórcio, pra cá e apenas descobre-se que litisconsórcio significa a ocasião que há mais de uma pessoa figurando no processo como autores ou mais de uma pessoa figurando como réus num processo. Geralmente não passa disto. É que aqui o “falar rápido” fez a união da expressão litis cum sors, ou seja, aqueles que dividem a sorte da lide (processo). É a mesma coisa para consórcio, onde dividimos a sorte nos sorteios de quem levará o bônus que todos contribuem mensalmente. Repita a expressão em latim bem rápido e veja se não se ouvirá litisconsórcio!

Se nos casos acima, abreviaram ou juntaram palavras, mas noutras vezes omite-se o resto frase. É o caso da expressão conhecida por todos “de cujus”, ou seja, na forma comum de se dizer: o defunto. A expressão somente será correta se dissermos de cujus successione agitur, traduzida: de quem se trata a sucessão / inventário.

Mas também aprontaram com mais uma palavrinha que usamos. Mas agora por asco (nojo) de dizer o que realmente queriam. É que o respeito pelas pessoas mortas não nos deixaria usar a expressão correta. Assim passou-se a utilizar outra mais amena, mais suave. Ninguém em sã consciência vai dizer que “a carne de seu pai (ou ente querido) que será entregue aos vermes está sendo velada! Imaginem o desconforto do fato de uma pessoa chegar a um velório e perguntar ao filho do falecido: “onde está a carne que será entregue aos vermes?”, referindo-se ao defunto. Seria por demais desrespeitoso. Mas acontece que a palavra “cadáver” significa justamente isto “caro data verme” Mas preferiram utilizar somente as primeiras sílabas de cada palavra CA DA VER. Se não elegante, ao menos mais digna de referir-se aos mortos.

Por fim um exemplo de simplificação das coisas. Os latinos criaram o prefixo cum que faz com que tudo que venha à frente dele seja “dividido”. Compadre: cum paters, ou seja, divide a paternidade. O mesmo acontece com cum maters ou seja, divide a maternidade, comadre. Companheiro é de cum panis, ou seja, aquela pessoa tão amiga que divide o pão. Circunferência é uma variante muito elegante: cirCUMferencia, ou seja, “fere” o circulo em um ponto e estende a linha, a distância entre um ponto e outro é a medida daquele círculo.

E assim vão as palavras na nossa riquíssima língua portuguesa!

Espero ter contribuído com o leitor para que, quando falar uma destas palavrinhas saiba exatamente o que está falando, e instigue a curiosidade por tantas outras que usamos no dia-a-dia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *