Participei do Estupro Coletivo

CONFESSO: EU PARTICIPEI DO ESTUPRO COLETIVO

Participei em cada um daqueles trinta rapazes que praticaram o ato criminoso e carnal com a garota.

Participei a primeira vez quando não critiquei mais severamente músicas com a letra do Terra Samba: “Abre essas pernas pra mim baby, Tô cansado de esperar, Você dá pra todo mundo, Só pra mim que você não qué dá”;

Uma segunda vez quando não divulguei ouvir musicas clássicas que bom tom ou com algum conteúdo moral adequando para convivência em sociedade;

Participei uma terceira vez quando como advogado não recriminei com mais veemência a violência contra a mulher;

Uma quarta vez quando deixei atos machistas serem propalados como de ideal social;

Na quinta vez quando como professor não eduquei meus alunos dentro de uma cultura de tolerância onde não se verificasse diferenças entre homens e mulheres;

Sexta vez quando não denunciei a existência de baladas regadas a drogas e sexo;

Sétima quando achei normal uma garota andar de roupas indecorosas, alertando-a que pode sim sentir ou vestir-se bem sem afetar os olhos dos outros, e instigar a cultura do sexo;

Oitava quando não falei mal ao rapaz que assediou a moça vestida com poucas roupas alertando a ele que, ela pode vestir-se como bem entender;

Nona vez quando não fiz voto de revolta e não protestei com a eleição de um tal bolsonaro (propositadamente em minúsculas)  com suas ideias machistas ir ao congresso nacional como deputado;

Décima quando não combati a demonização existentes nas religiões que excluem mais e mais pessoas amando somente seus próximos mais fáceis de amar;

Décima primeira quando não exigi que as igrejas fizessem cultos para gays, lésbicas, drogados, funkeiros e demais excluídos, aceitando suas condições de, se não filhos de Deus, mas no mínimo nossos irmãos desprezados;

Décima segunda quando não vou às comunidades menos favorecidas de cultura para levar um pouco de meus conhecimentos e lhes dar algum acesso a melhores formas de convívio social;

Décima terceira, quando viro a cara e ignoro o garoto e a garota que vendem balas pelas madrugadas em verdadeiro ato de escravidão infantil, e não denuncio estes atos;

Décima quarta quando vejo as prostitutas e travestis maiores de idade nas esquinas das cidades de não os acolho para uma boa palavra abrir seus olhos para algum mal que praticam;

Décima quinta quando vejo menores de idade se prostituindo e não denuncio, e acho que é a vida que desgraçados merecem;

Décima sexta, ao virar de costas para as oportunidades de dar um abraço num ou uma jovem e lhe dizer que o futuro é brilhante pois basta querer e afastar-se de maus exemplos;

Décima sétima por apoiar todas as culturas, mesmo aquelas de escancaradamente não pregam nada de importante para as boas relações sociais;

Décima oitava quando imponho meus conceitos sem dar motivos justos para que uma pessoa os acate e discrimino os conceitos dos outros;

Décima nona vez, quando adoto apenas um cão e lhe dou vida de rei e não adoto uma criança quando posso adotar os dois e aos dois dar-lhes do bom;

Participei daquele estupro! Participei sim! Participo! Deixo as coisas acontecerem. Até gosto:

Gosto uma vigésima vez quando deixo de socorrer vítimas de um acidente e faço a filmagem da agonia dos moribundos para postar no whastapp;

Gosto pela vigésima primeira vez quando o Jornal Nacional mostra o linchamento de pessoas, o Bonner dá “boa noite” e vou para a cama sem nenhum pesar pelo que vi;

A vigésima segunda quando vejo a Globo disseminando a diferença de classes em novelas que não retratam uma vida real e me conformo com isto;

Gosto também uma vigésima terceira quando os templos cristãos deveriam ser humildes e nossas prisões deveriam ser escolas de reeducação social e os ditos “filhos do Cristo” preferem igrejas com ar condicionado;

Vigésima quarta vez quando os gastos públicos com mordomias são mais da metade do orçamento de qualquer Município, Estado e da União e ainda voto nos mesmos capangas políticos que estão com seus nomes nas operações da Polícia Federal;

Vigésima quinta vez gosto e estupro aquela moça quando não exijo daquele político que votei uma atitude firme contra as diferenças sociais, criminalidade, e questões mais importantes que o dinheiro no bolso deles;

Vigésima sexta vez quando compartilho ideias de pessoas ignorantes / intolerantes nas redes sociais, onde somente fazem disseminar a cultura do ódio;

Vigésima oitava quando sou orgulhoso demais para assumir minhas falhas na vida em sociedade;

Vigésima nona por omitir, mentir, faltar com minhas obrigações de cidadão, por não fazer nada de concreto além de postagens na internet, por ficar de papo apenas e não tomar atitudes sérias e efetivas contra estes disparates;

A trigésima vez que participei daquele estupro coletivo foi quando aceito, tolero, admito discursos hipócritas vindo de pessoas que se dizem defensores da moral e dos bons costumes mas na verdade são arrogantes que não saem de suas vidas sossegadas, e tem a obrigação de ajudar com suas opiniões, atos e, principalmente, no exercício de suas funções políticas, jornalísticas, religiosas, esportivas e todas as demais pessoas que são muito mais que eu, e por isto os chamava de ídolos não fizeram nada para ajudar o país… por isto, com estes ídolos, eu afrontei aquela moça que apenas foi idolatrada sexualmente e violentamente por 30 “eus”.

 

 

 

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