A Lição de Narciso

A contemplação de Narciso
A contemplação de Narciso

Filho do rio Cefiso e da ninfa Liríope. O pai, um deus fluvial e a mãe uma oceânida, ou seja, ambos originários da água. Criado com os deuses, Narciso tornou-se um belo rapaz. Mas sua beleza maior era a interior. Tanto é que nesta beleza jamais amou, pois o amor cega, destrói e torna a pessoa escrava de outra. Amor não pode ser escravidão, deve ser libertação. Assim sendo, Narciso permaneceu insensível ao amor e a outras paixões aparentemente boas, mas que destroem o homem.

Marte (ou Ares, deus da guerra) tentou aproximar dele e não deu conta. Venus (ou Afrodite, deusa do amor) o temia e desejava numa contradição sentimental. Dois grandes amores possessivos não podem conviver.

Ele era objeto de paixão de várias ninfas de Vênus, dos rapazes de Apolo, e de mortais de ambos os sexos.

Após sua instrução juvenil foi levado ao sábio Tirésisas (o mesmo adivinho que leu o futuro de Édipo com sua mãe Jocasta). Tirésias disse que Narciso viveria muitos anos se não se conhecesse. Ao autoconhecimento não pode se dar sem amor, sem compartilhamento com o outro. Autoconhecimento deve se dar com alguém do lado como uma mola propulsora para o crescimento interno. Narciso não se abria a isto.

Até então Narciso não conhecia o amor. Mas existia à época uma deusa que era o “amor entrega”, aquele amor que tudo dá e nada pede em troca, a dedicação exagerada que não corresponde a um ideal de amor, pois amor é correspondência. Esta deusa era Eco. Foi desprezada por Narciso. O amor precisa de correspondência. Amor significa cada qual abrir mão de algo para o outro: nem todo em si (amor possessivo) nem todo dedicação (amor de entrega total). Eco tinha sido amaldiçoada por Juno (ou Hera, deusa das terras) e somente repetia as últimas palavras das pessoas com quem conversava. Eco, recusada, subiu na mais alta das montanhas e se jogava de lá num repetido ranger de dores.

Este “amor próprio” de Narciso foi amaldiçoado por várias deusas e ninfas. Diana (ou Artemis, deusa da caça) foi terrivelmente ignorada. A “caçadora” de amores também sucumbiu. Amor não pode ser um troféu de caçadas e aventuras.

Um belíssimo rapaz, Ameinias, apaixonado, procurou por Narciso e lhe deu toda ordem de presentes eis que era muito rico. Narciso vendo isto, também presenteia Ameinias: uma espada com a qual se matou após Narciso o refutar. Amor não se compra com presentes ou bens materiais.

E assim sucessivamente Narciso refugava todas as declarações de amor, paixão, sexo e outros desejos que procuram “laçar” a outra pessoa. Amor não se laça, não se apodera… se conquista. Amor não se compra… recebe-se gratuitamente. Amor não é doação total… é compartilhar.

Nêmesis, também deusa da justiça e muito severa punia e humilhava os prósperos, orgulhosos e soberbos a tudo isto via de longe com medo de enamorar-se de Narciso. Mas Nêmesis também é deusa da reflexão e do pensamento. Assim sendo, pensou em fazer com que Narciso sofresse sobre seus atos contra os amores que lhe eram declarados. Há uma narrativa que diz que ela pegou a espada cravada no peito de Ameinias e fez com que Narciso se matasse. Mas prefiro a narrativa de informa o final a seguir.

Nêmesis vendo que Narciso era filho de deuses aquáticos fez com que ele se aproximasse de um lago para se refrescar após uma caçada com filhos de Apolo. Vendo seu reflexo apaixonou-se por si mesmo. O amor próprio, egoísta e que não cede; amor que não enxerga nada a sua volta. Isto fez com que ele ficasse paralisado contemplando sua imagem no lago. E assim indiferente ao mundo à sua volta morreu naquele lugar. Ali os deuses fizeram nascer uma flor que levou seu nome. Contemplou-se na água naquilo que é fluido, passa, sem olhar para os lados; água que arranca as margens, água que corre para o imenso mar e nele se perde. Assim é o amor que segue em si e dá voltas diante de todos que querem detê-lo para ao final desaparecer na própria água oceânica.

Conta-se que quando foram lhe colocar as duas moedas sobre os olhos (tradição grega para que as moedas fossem utilizadas para pagamento do transporte a Caronte pelo rio Estige que levava as almas ao mundo dos mortos) seus olhos ainda não se fechavam. E mais, que sua alma procurava sua imagem no Estige procurando seu reflexo. Mas o amor não pode ser visto no mundo dos mortos. Amor é vida. Amor é fogo ardente de viventes em sintonia. Narciso não tinha amor, a não ser por ele mesmo, por isto nada refletia no rio que levava a Hades (ou Plutão, deus dos mortos).

E assim era contada a história de Narciso aos jovens gregos para instruí-los na “arte” de amar.

 

 

Por fim, interessante ver a flor de narciso:

Notem que as pétalas – soltas e independentes – circundam uma pétala central, fechada, que tem dentro de si o bulbo, e  não deixa as demais pétalas terem acesso ao néctar!

narciso2

 

 

2 thoughts on “A Lição de Narciso

  1. Muito interessante a história. Mostra o quão lindo e, ao mesmo tempo, perigoso é o amor. (Não é por isso que devemos deixar de amar)

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