Efemérides

A solidão

Certa feita um amigo perguntou-me o que era “efemérides”. Respondi-lhe com um sorriso: Efemérides é algo que não chega a ser lana caprina, mas não relevante o suficiente para receber lugar nas calendas.

Perplexo, ele disse que ainda não sabia o significado, já que expressei-me com palavras também desconhecidas.

Retoquei minha resposta: efemérides é a palavra latina que dá origem a palavra portuguesa efêmero. Ou seja, algo passageiro, que não dura mais que um dia. Efêmero, assim como efemérides é algo insignificante, mas ainda assim possui uma nota. Efêmero é um acontecimento do qual não se espera que novamente ocorra, ou, se ocorrer, o será em data não certa, podendo assim ser relegado ao esquecimento.

Lana caprina, palavra que também utilizei na definição é o desprezível, aquilo que se joga fora. A origem da expressão Lana caprina está na lã dos caprinos (ovelhas) que, situando na barriga se arrasta pelo chão e é descartado, assim como os pelos que rodeiam o ânus destes animais; pelos estes que sempre defecados, também são jogados fora.

calendas dá origem a palavra calendário, aquilo que é importante a tal ponto que se dedica especialmente uma data para se comemorar. O acontecimento que vai para o calendário é aquele que ansiosamente esperamos, temos gosto de lembrar! Comemoramos fazendo votos que se repita sempre.

Assim sendo as três palavras possuem significado temporal muito importante:

Lana caprina: pode nem ser um acontecimento! É algo digno de ser jogado fora.

Efemérides: o insignificante; passageiro; talvez nem venha mais a ser lembrado.

Calendas: acontecimento importante; digno de nota; que queremos sempre lembrar.

Assim são, também as relações com as pessoas: umas que nem sequer vemos, são jogadas fora e desprezadas; outras, conhecemos, mas não passa de um mero ver e nunca mais reencontrar. Já aquelas que vão ser escritas na pedra das calendas, ou seja, marcam, ficam para sempre na memória.

Sinto-me triste em encontrar muitas pessoas como efemérides: aquelas que encontrei uma vez e depois nunca mais as vi, ou nem sequer quiseram me ver novamente. De algumas até me esqueço. Pior, outras que são Lana caprina, que nem se quer vendo  já são descartáveis (ou me descartam) como são lançados (ou me lançam) ao lixo tal qual os pelos anais das ovelhas.

Pessoas dignas do registro nas calendas!!! Oh! Destas sinto falta! Que pena hoje a escolha das pessoas seja apenas o efêmero.

 

 

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